A política tem uma característica curiosa: ela não é julgada apenas pelo que faz, mas principalmente pelas mensagens que transmite.
E a mensagem enviada pela Prefeitura de Porto Velho nos últimos dias é, no mínimo, contraditória.
De um lado, a administração publica um decreto de contingenciamento. O discurso é de responsabilidade fiscal. A justificativa é a necessidade de equilibrar as contas públicas. Fala-se em contenção de despesas, limitação de gastos e medidas para enfrentar um cenário financeiro delicado.
De outro lado, poucos dias depois, surge uma licitação de até R$ 5 milhões para a realização de corridas de rua.
A pergunta não é jurídica. A pergunta é política.
Se o caixa está pressionado, se a arrecadação preocupa, se a Prefeitura precisa economizar e se o próprio município reconhece a necessidade de cortar despesas para preservar o equilíbrio fiscal, por que a urgência de criar uma ata milionária para eventos esportivos?
O que mudou entre a publicação do decreto e a abertura da licitação?
A situação financeira melhorou em questão de dias?
Os problemas que justificaram o contingenciamento desapareceram?
Ou o contingenciamento vale apenas para algumas áreas da administração?
Ninguém questiona a importância do esporte. Corridas são eventos positivos, incentivam hábitos saudáveis e movimentam a economia. Mas existe uma diferença entre reconhecer a importância de uma atividade e transformá-la em prioridade absoluta num momento de aperto financeiro.
Quando uma família passa por dificuldades, ela reorganiza as prioridades. Quando uma empresa enfrenta queda de receita, ela posterga investimentos não essenciais. Quando um município decreta contingenciamento, espera-se exatamente a mesma lógica.
Por isso, a discussão central não é sobre a corrida.
A discussão é sobre prioridades.
Se a Prefeitura afirma que precisa reduzir mais de R$ 90 milhões para equilibrar as contas, não seria mais prudente aguardar a recuperação financeira antes de assumir compromissos milionários com eventos?
Qual é a urgência?
Qual é a necessidade imediata?
Por que não esperar?
São perguntas legítimas que a sociedade tem o direito de fazer.
Ainda mais quando a mesma administração que pede compreensão diante das dificuldades financeiras demonstra disposição para colocar até R$ 5 milhões em um único projeto de eventos.
No fim das contas, a questão é simples.
Ou o cenário financeiro é grave e exige sacrifícios de todos.
Ou não é.
O que parece difícil de explicar é como um decreto de contingenciamento e uma licitação milionária conseguem coexistir na mesma semana sem gerar dúvidas sobre a coerência das decisões tomadas dentro do próprio governo.
No fim, a maior corrida talvez nem seja a que acontecerá nas ruas de Porto Velho. A verdadeira corrida é a de 2026. E quando falta dinheiro para servidores, para investimentos e para manter as contas equilibradas, mas sobram milhões para eventos de grande exposição, o cidadão tem o direito de desconfiar. Afinal, para muitos, parece que na corrida para eleger o irmão, vale tudo, até abrir os cofres da Prefeitura enquanto se fala em contenção de despesas.
por Tiago Miranda
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