Kai Havertz é um dos centroavantes que podem parecer um jogador simples de explicar, mas seu jogo é diferente do comum. É alto, bom no jogo aéreo, capaz de atacar a área e baixar para o meio. Durante boa parte da carreira, foi classificado como meia, atacante ou falso nove, até encontrar no Arsenal uma função mais próxima à de centroavante.
No início da temporada 2026/27, isso ficou evidente. Havertz começou os quatro primeiros jogos de Premier League como titular e marcou duas vezes, além de ter feito um gol na vitória sobre o Manchester City pelo Community Shield. Sua contribuição, entretanto, vai muito além desses números.
Havertz ajuda a explicar uma transformação que aconteceu com a posição nos últimos anos. O centroavante continua tendo de marcar gols, naturalmente. Só que, para alguns dos principais treinadores do futebol atual, isso deixou de ser suficiente para definir o valor de um camisa 9.
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Havertz, Jesus e o centroavante que começa a pressão
O “The Athletic” lembrou que Arteta chegou a explicar antes da partida contra o Sunderland que a posição de Havertz depende de uma série de fatores: o momento do jogo, o que a equipe precisa fazer, a situação da bola, as jogadas ensaiadas, a pressão adversária e até se o goleiro rival é destro ou canhoto.
A partir disso, o site inglês analisou como o alemão se portava em diferentes partidas. No fim, Havertz não ocupa simplesmente uma posição, mas um espaço em função do que o adversário oferece. E, em um time que quer controlar a saída de bola rival com tanta precisão, alguns metros podem mudar completamente a jogada.
Se o goleiro for destro, seu passe mais natural tende a sair para um determinado lado. Se for canhoto, o ângulo muda. Se um zagueiro específico for responsável por receber a primeira bola, a estrutura muda novamente. Se o volante recuar para participar da construção, surge outro passe a ser protegido.
Seu trabalho não é necessariamente correr diretamente em direção ao goleiro.
É se posicionar de modo que um passe específico fique mais difícil ou impossível. Foi isso que aconteceu contra o Manchester City. Gianluigi Donnarumma, destro, tinha uma preferência clara por determinados ângulos de saída. Havertz se posicionava de forma a dificultar a circulação pelo lado direito do goleiro italiano.
O objetivo não era necessariamente roubar a bola. Era forçar Donnarumma a fazer o passe que o Arsenal queria. O goleiro ficava sem uma saída curta confortável e precisava recorrer ao lançamento. A partir daí, o Arsenal disputava a segunda bola com uma estrutura já preparada.
Se o Arsenal sabe que o goleiro é destro, Havertz pode fechar uma linha de passe específica e conduzi-lo para determinado lado. O treinador não está dizendo que Havertz troca de posição por capricho, mas que a posição inicial do atacante é uma consequência da informação disponível antes da jogada.
Contra o Sunderland, por exemplo, Robin Roefs era canhoto. O Arsenal sabia ainda que o Sunderland utilizava Kevin Danso para participar da saída curta e conectar-se ao goleiro. A resposta foi colocar Havertz mais centralizado. Em vez de partir inicialmente de um lado, ele esperava próximo ao centro e, quando Roefs recebia, acelerava para um dos lados, fechando o ângulo e tentando induzir o goleiro ao lançamento.
Gabriel Jesus é outro caso particularmente interessante porque sua importância nunca dependeu apenas da capacidade de marcar gols. Pep Guardiola já havia identificado no brasileiro uma característica que o tornava adequado ao Manchester City: agressividade e intuição para pressionar.
Quando Julián Alvarez chegou ao clube, Guardiola comparou os dois justamente nesse aspecto, dizendo que o argentino era defensivamente semelhante a Jesus e destacando sua agressividade e capacidade de interpretar as jogadas.
No Arsenal, Arteta enxergou a mesma característica. Ao explicar a adaptação de Jesus ao clube, o treinador destacou a intensidade coletiva necessária para recuperar a bola no campo adversário e disse que não era possível jogar dessa maneira com atacantes que “só andam” defensivamente.
E Jesus frequentemente a transforma a pressão em uma perseguição agressiva. Ele acelera sobre o zagueiro, muda de direção, fecha uma linha, volta para pressionar o goleiro e tenta transformar uma saída aparentemente segura em uma situação desconfortável. Ele saber quando correr.
Uma análise do “FBRef” sobre sua passagem pelo Arsenal em 2025/26 encontrou 28,22 pressões por 90 minutos, número que o colocou entre os 5% melhores centroavantes desse quesito das cinco grandes ligas. O levantamento também apontou 6,95 contra-pressões por 90 minutos, entre os 3% melhores.
Firmino mostrou que o 9 pode criar sem tocar na bola
Antes de Havertz começar a transformar a posição em um problema de geometria para os adversários, Roberto Firmino já havia mostrado no Liverpool de Jürgen Klopp que um centroavante poderia ser decisivo sem precisar ser o principal finalizador.
Klopp tinha uma definição particularmente reveladora sobre o brasileiro. Para o alemão, não era uma contradição que um atacante fosse avaliado também pela maneira como defendia.
Firmino podia sair da referência central, recuar para receber, arrastar um zagueiro e abrir o corredor para Sadio Mané ou Mohamed Salah atacarem. Quando o defensor decidia acompanhá-lo, criava-se um espaço atrás. Quando não acompanhava, Firmino recebia entre as linhas. O atacante não precisava necessariamente tocar na bola para alterar a estrutura defensiva.
A própria dinâmica do Liverpool de Klopp dependia disso. A linha ofensiva era fluida, e Firmino podia abandonar a posição de centroavante enquanto os jogadores ao redor ocupavam o espaço que ele deixava. A movimentação não era um abandono da função de 9, — era a própria função.
Por isso, transformá-lo em um atacante que “não fazia tantos gols” seria perder o ponto. Firmino marcou 111 gols pelo Liverpool e foi um dos principais jogadores de uma equipe que ganhou Premier League e Champions League. Ele era capaz de finalizar, mas seu valor estava em algo maior. Klopp não precisava que Firmino fosse apenas o jogador que terminava a jogada.
Alvarez e Kane são os exemplos mais extremos da mudança
Julián Alvarez ajuda a evitar uma interpretação equivocada dessa tendência. Não se trata de dizer que os treinadores modernos passaram a abrir mão dos gols em nome da tática. Alvarez é justamente o contrário: um atacante capaz de marcar muitos gols e, ao mesmo tempo, cumprir uma enorme quantidade de trabalho defensivo.
Quando chegou ao Manchester City, Guardiola destacou sua movimentação, desejo e trabalho sem bola. Alvarez, portanto, representa uma etapa diferente da mesma transformação: ele não precisou trocar gols por trabalho tático, conseguiu oferecer os dois.
Isso mostra que a evolução da posição não significa que o centroavante deixou de ser um goleador. O que mudou foi a quantidade de coisas que se espera que ele consiga fazer além disso.
Um 9 que marca 25 gols e não participa do funcionamento coletivo continua sendo valioso. Um 9 que marca 20 e oferece uma pressão coordenada pode ser ainda mais valioso para determinado modelo. Um 9 que marca 15, mas cria espaços para dois pontas que chegam a 20, também pode cumprir exatamente aquilo que o treinador precisa. O número de gols continua existindo. Só deixou de contar toda a história.
Harry Kane leva a discussão para outro lugar porque demonstra que o centroavante pode abandonar completamente a região em que esperamos encontrá-lo e ainda assim continuar exercendo a função de 9. No Bayern de Munique e na seleção inglesa, se tornou o centroavante que baixa tanto a ponto de receber a bola perto dos zagueiros.
A lógica é simples, mas difícil de defender. Na seleção, por exemplo, Declan Rice e Elliot Anderson atraem os meio-campistas para fora da região central enquanto Kane recuava. Se um jogador o acompanhasse, abria-se espaço para outro inglês. Se ninguém o acompanhasse, Kane recebia livre entre as linhas.
Jude Bellingham permanecia em uma zona mais avançada, enquanto os pontas mantinham a largura e ameaçavam a profundidade. O centroavante, nesse caso, não estava apenas terminando o ataque, mas ajudando a construí-lo desde trás. Isso ajudou Bellingham a marcar sete gols na Copa do Mundo, mas o próprio Kane também atingiu esse número. E, no Bayern de Munique, foi o maior artilheiro do país.
O novo centroavante não precisa parecer um centroavante
Talvez essa seja a principal transformação da posição. Durante décadas, a imagem do centroavante esteve associada à permanência na região mais perigosa do campo: o jogador que espera a bola, briga com os zagueiros, ganha duelos aéreos e finaliza.
Essas características continuam existindo. A questão é que os melhores sistemas atuais encontraram maneiras de transformar a própria posição em uma ferramenta coletiva. O atacante pode sair da área para criar espaço, permanecer no meio para bloquear uma linha de passe ou deslocar-se para um lado para orientar a saída adversária.
Pode recuar para criar superioridade, pressionar o zagueiro para determinar para onde o goleiro será obrigado a jogar e, quando a bola chegar à área, ainda precisar estar lá para finalizar. O 9 não precisa receber a bola para influenciar a jogada.
E é exatamente isso que Firmino, Jesus, Álvarez e Kane ajudam a explicar. São jogadores diferentes, de gerações diferentes e com características técnicas diferentes, mas todos mostram que o centroavante moderno pode ser muito mais do que o último jogador de uma jogada.

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