O maior frigorífico de Rondônia – e sexto maior na Amazônia Legal – o frigorífico Irmãos Gonçalves pode ter abatido 260 mil cabeças de gado criadas em fazendas com desmatamento, trabalho escravo e outras irregularidades socioambientais. É o que apontam os dados divulgados nesta quinta-feira, 20 de agosto, pelo Ministério Público Federal, que revelou os resultados do 3º ciclo de auditorias do TAC da Carne. O ciclo cobre abates realizados em 2023 e 2024.
As auditorias são fruto dos acordos firmados desde 2009 entre o MPF e frigoríficos que atuam na Amazônia. Pelos termos acordados, as empresas precisam comprovar que não comercializam animais provenientes de áreas com desmatamento ilegal, grilagem, trabalho escravo, invasões a unidades de conservação e a terras indígenas e quilombolas.
Ao contrário dos demais gigantes da carne da Amazônia, que colaboram com o MPF, o frigorífico Irmãos Gonçalves não apresentou as informações de suas compras. Por isso, o MPF acessou dados públicos e realizou análises automatizadas de todas as remessas de gado que tiveram como destino uma de suas unidades em Rondônia.
O resultado é que mais de um terço das transações da empresa possuem indícios de ilegalidade, seja desmatamento ilegal, invasão de áreas protegidas ou uso de mão de obra em condições análogas à escravidão – ou vários desses problemas sobrepostos. Entre as 800.141 cabeças de gado abatidas em dois anos, 260.952 não estavam de acordo com as regras do MPF, um percentual de 32,6% do total de abates.
“O MPF vai ter atenção especial com esse frigorífico, que é muito grande e precisa ter mais responsabilidade”, alertou Gabriel de Amorim Silva Ferreira, Procurador da República de Rondônia.
Segundo o procurador, nos diálogos com a empresa, os gestores teriam afirmado que contratam monitoramento socioambiental “mas não iriam se sujeitar às auditorias do MPF”. “Por que a empresa se recusa a ser transparente com a sociedade civil?”, ponderou Ferreira.
Em 2024, a Justiça condenou o frigorífico Irmãos Gonçalves (além do Distriboi e de três pessoas físicas) ao pagamento de R$ 4,2 milhões por desmatamento ilegal e criação de gado na Reserva Extrativista Jaci-Paraná.
Além do frigorífico Irmãos Gonçalves, de Rondônia, as outras cinco maiores quantidades de gado abatido são das unidades da JBS e Marfrig em Mato Grosso, além de JBS, Mercúrio e Frigol no Pará. Apenas a JBS teve não-conformidades apontadas, mas salientou que elas “concentraram-se exclusivamente em aspectos documentais” (leia a íntegra abaixo).
O frigorífico Irmãos Gonçalves também foi procurado, mas não retornou nosso contato. O espaço segue aberto e o texto será atualizado assim que as empresas se posicionarem. Veja os números abaixo.
Maior frigorífico do Brasil – e do planeta – as unidades da JBS nos estados do Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins abateram 10.941 cabeças de gado provenientes de fazendas com problemas socioambientais. O dado é auditado pelo MPF e não são casos suspeitos como os do frigorífico Irmãos Gonçalves, mas sim, comprovados.
Apesar do volume elevado de animais, o percentual de irregularidades da JBS é o melhor da série histórica: em nenhum estado, o frigorífico passou de 3% de problemas, o que está dentro da margem de tolerância estabelecida pelo MPF, de 4%. Ao todo, a JBS abateu 8,7 milhões de cabeças de gado nos cinco estados da Amazônia Legal em que atua, mas o total de compras auditadas é menor.
Em nota, a JBS informa que “registrou índice de conformidade de 97,62% em suas aquisições de bovinos na Amazônia”. “As inconformidades residuais concentraram-se exclusivamente em aspectos documentais. Nos critérios socioambientais avaliados, a JBS registrou zero não conformidade”.
Já os outros dois gigantes da carne brasileira, Minerva e Marfrig tiveram 100% de aprovação nas auditorias, ou seja, nenhuma compra auditada foi considerada irregular pelo MPF. Os frigoríficos possuem unidades em Mato Grosso, Rondônia e Tocantins.

Comentários: