Uma investigação exclusiva do Portal Fatos RO identificou divergências em um documento federal utilizado no processo que resultou na contratação de R$ 2 milhões pela Prefeitura de Porto Velho para a realização do evento Porto Velho Tecnogame, previsto para acontecer nos dias 21 e 22 de março, na capital.
A contratação foi oficializada por meio de inexigibilidade de licitação, dentro do processo administrativo nº 014.000941/2025-51, conduzido pela Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer (Semtel), pasta comandada pelo secretário Paulo Moraes, irmão do prefeito Léo Moraes.
Apesar de ser o responsável pela secretaria, Paulo Moraes não aparece como signatário nos principais documentos do processo administrativo, que foram conduzidos por assessores e pelo secretário executivo da pasta.
Toda a documentação analisada pela reportagem está disponível publicamente no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) e no Diário Oficial dos Municípios, podendo ser consultada por qualquer cidadão.
https://pncp.gov.br/app/editais/05903125000145/2026/49
Documento utilizado no processo difere da versão oficial do governo federal
Durante análise detalhada da documentação anexada ao processo, a reportagem do Fatos RO teve acesso ao documento apresentado à prefeitura e também à versão original da certidão disponível no sistema oficial do Ministério do Esporte, cuja autenticidade foi conferida por meio dos mecanismos de validação do próprio sistema federal.
A comparação entre os arquivos revelou diferença relevante entre os documentos.
Na certidão original emitida pelo Ministério do Esporte consta de forma expressa que o documento possui validade de um ano a partir da data de emissão.
Já o documento anexado ao processo administrativo da Prefeitura de Porto Velho não apresenta o mesmo trecho que informa o prazo de validade da certificação, presente na versão oficial.
Na prática, o documento apresentado à prefeitura difere da versão original registrada no sistema federal justamente na parte que trata da validade da certidão.
Certidão estava vencida no momento da contratação
O documento emitido pelo Ministério do Esporte possui data de emissão em 23 de agosto de 2024, com validade de um ano, expirando em 23 de agosto de 2025.
A contratação realizada pela Prefeitura de Porto Velho ocorreu apenas em 2026, quando a certidão já não possuía validade.
Mesmo assim, o documento foi utilizado na instrução do processo administrativo que resultou na contratação de R$ 2 milhões para a realização do evento.
Entidade que emitiu atestado de exclusividade não possui reconhecimento oficial
Outro ponto identificado na investigação envolve a Confederação Brasileira de Games e Esports (CBGE), entidade mencionada na documentação anexada ao processo administrativo.
Foi essa entidade que apresentou documento de exclusividade utilizado para justificar a inexigibilidade de licitação.
Entretanto, nos documentos analisados não consta comprovação de que a CBGE seja oficialmente reconhecida pelo Ministério do Esporte como entidade nacional de administração de modalidade esportiva, conforme exigências previstas na Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) e na Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023).
Sem esse reconhecimento formal, surgem questionamentos sobre a validade do atestado de exclusividade utilizado no processo.
Na prática, isso indica que outras empresas poderiam prestar o mesmo serviço por meio de processo licitatório, caso fosse aberto procedimento competitivo.
Prefeitura realizou pagamento antecipado de R$ 790 mil
Outro ponto identificado pela reportagem é que o processo administrativo prevê pagamento antecipado de R$ 790.000,00 à empresa responsável pela organização do evento.
Segundo documentos do próprio processo, esse valor corresponde à primeira etapa do contrato, destinada a despesas como cachês, passagens e hospedagens, custeadas antes mesmo da realização do evento.
O contrato firmado pela prefeitura prevê pagamento total de R$ 2 milhões, para um evento que terá apenas dois dias de programação.
Evento financiado com recursos públicos aparece em colaboração com perfil pessoal do prefeito
A divulgação do evento nas redes sociais também chamou atenção.
A página oficial do Tecnogame Brasil realizou publicação em formato de colaboração no Instagram com o perfil pessoal do prefeito Léo Moraes, o que faz com que o conteúdo apareça simultaneamente tanto no perfil da empresa organizadora quanto na rede social do chefe do Executivo municipal.
A publicação ocorre enquanto o evento é financiado com recursos públicos municipais, levantando debate sobre a utilização de eventos custeados com dinheiro público em conteúdos vinculados a perfis pessoais de agentes políticos.
Responsabilidade da administração na conferência documental
Em contratações realizadas sem licitação, como no caso da inexigibilidade, a responsabilidade da administração pública na análise documental se torna ainda mais rigorosa.
Cabe ao órgão público verificar a autenticidade, validade e adequação das certidões apresentadas no processo, especialmente quando envolvem contratos de alto valor.
Diante das divergências identificadas entre o documento anexado ao processo municipal e a versão oficial disponível no sistema federal, surgem duas possibilidades: ou a documentação não foi analisada com o rigor necessário durante a tramitação do processo, ou as inconsistências foram identificadas e, mesmo assim, o procedimento seguiu normalmente.
Em ambos os cenários, a situação levanta questionamentos sobre os critérios adotados na condução do processo que resultou na contratação de R$ 2 milhões para a realização de um evento de apenas dois dias.
Investigação exclusiva
As inconsistências identificadas na documentação foram reveladas por investigação do Portal Fatos RO, que vem analisando os documentos públicos relacionados à contratação.
Até o momento, nenhum outro veículo de comunicação local havia apontado as divergências documentais identificadas na contratação.
O portal seguirá acompanhando o caso e eventuais esclarecimentos por parte da administração municipal.

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