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Quinta-feira, 22 de Outubro de 2026
Como fraude financeira do City ameaça as relações geopolíticas do Reino Unido

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Como fraude financeira do City ameaça as relações geopolíticas do Reino Unido

A conclusão de culpa por 114 das 115 acusações de violações financeiras contra o Manchester City na Premier League por um painel independente aponta para uma série de consequências que vão além do futebol. Naturalmente, questiona-se se os títulos dos Citizens serão mantidos, se a equipe será rebaixada e outras possíveis sanções esportivas. Mas ainda …

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Como fraude financeira do City ameaça as relações geopolíticas do Reino Unido

A conclusão de culpa por 114 das 115 acusações de violações financeiras contra o Manchester City na Premier League por um painel independente aponta para uma série de consequências que vão além do futebol. Naturalmente, questiona-se se os títulos dos Citizens serão mantidos, se a equipe será rebaixada e outras possíveis sanções esportivas. Mas ainda há o campo geopolítico dessa decisão e como isso pode impactar a política Reino Unido.

Isso porque o clube inglês, desde 2008, pertence ao Abu Dhabi United Group (ADUG), empresa do Sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan, vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos e irmão do presidente Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Inclusive, a maior infração financeira foi a ADUG inflando as receitas do clube entre 2009 e 2018 em mais de 900 milhões de libras em contratos fraudulentos.

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Como City pode sofrer punição que garante rebaixamento da Premier League

Como City pode sofrer punição que garante rebaixamento da Premier League

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O City é um clube-estado, a grande “propaganda” dos Emirados Árabes Unidos no exterior, e serve para limpar a imagem do país pelas várias violações de direitos humanos e outros crimes cometidos pelo governo local contra minorias e opositores, prática conhecida como “sportswashing”.

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Qualquer sanção por suas fraudes financeiras aos Citizens seria um golpe para os Emirados. Entre as sanções analisadas, há até a possibilidade de forçar o clube a ser vendido — algo próximo do que aconteceu com o oligarca russo Roman Abramovich, obrigado a vender o Chelsea depois da Rússia invadir a Ucrânia.

E, aí, o problema que seria só para o futebol vira uma questão para o Reino Unido. Segundo a agência de notícias “Bloomberg”, os EAU consideram diminuir investimentos futuros no território britânico caso a punição seja muito severa.

A Trivela entrou em contato com especialistas na área para entender o quanto esse corte pode afetar a Inglaterra e a real chance disso acontecer, levando em conta as relações entre os países.

Faixa da torcida do Liverpool chama Sheik Mansour, dono do Manchester City, de "Poderoso Golpista" em referência ao filme Poderoso ChefãoFaixa da torcida do Liverpool chama Sheik Mansour, dono do Manchester City, de “Poderoso Golpista” em referência ao filme Poderoso Chefão (Foto: IMAGO / Propaganda Photo)

A boa relação entre Reino Unido e Emirados Árabes Unidos

Atualmente, a nação emiradense é uma grade parceira dos britânicos. Segundo a agência de notícias “Bloomberg”, os investimentos do país Golfo Pérsico no Reino Unido foram de 30 bilhões de libras só nos últimos cinco anos. O valor é o triplo do projetado em uma parceria firmada em 2021 via Mubadala Investment Company, um dos principais fundos soberanos de investimento de Abu Dhabi.

“Os Emirados Árabes Unidos são um país que conseguiu construir muita confiança com os países ocidentais”, explica o professor de política internacional Tanguy Baghdadi à Trivela. “A relação com o Reino Unido é muito boa, de confiança, bem transparente e que cresceu muito ao longo dos últimos anos.”

É um vínculo antigo, pois os Emirados Árabes Unidos foram protetorado britânico até 1971, e nos dias atuais reflete a vontade da nação do Oriente Médio, uma das mais ricas do mundo e a sexta maior reserva de petróleo, de expandir e diversificar suas receitas.

— Geralmente a Inglaterra mantém boas relações com as suas ex-colônias, facilitando o comércio, investimentos, intercâmbio — reiterou Ricardo Bruno Boff, professor de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Os investimentos atuais se concentram, especialmente, em defesa, energia renovável, portos e tecnologia. Os 30 bilhões de libras são uma quantia absurda. Em reais, seriam 199 bilhões, maior do que o PIB de 13 estados brasileiros. Ainda assim, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, não dá para dizer que há uma dependência do Reino Unido, nem que teriam um impacto severo no país um massivo corte desse dinheiro.

— O Reino Unido possui fontes diversificadas de capital e não depende exclusivamente dos Emirados. Uma eventual retração poderia afetar projetos específicos, mas não necessariamente provocar uma crise econômica ampla — explicou Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial que atua na estruturação jurídica com foco em leis de incentivo ao esporte.

Isso é reforçado pelos dados. Os 30 bilhões de libras, apesar de saltarem os olhos, representam 1,4% do investimento estrangeiro no Reino Unido, que chega a 2,1 trilhões de libras nos últimos cinco anos. Os Estados Unidos, por exemplo, investiram 25 vezes mais que os Emirados Árabes no período; o Japão, cinco; e a França, quatro. Os EAU são superados por pelo menos 15 países no quesito investimento na economia britânica.

O Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed al-Nahyan (com o Ghutra na cabeça), e o Sheik Mansour, seu irmão, vice-presidente e dono do Manchester CityO Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed al-Nahyan (com o ghutra na cabeça), e o Sheik Mansour (de cachecol), seu irmão, vice-presidente e dono do Manchester City, em jogo do time inglês (Foto: IMAGO / APL)

O impacto seria mais sentido em áreas específicas. O jornal “The Telegraph” publicou que os Emirados Árabes Unidos estão ameaçando cortar um investimento que fariam em um polo de tecnologia no Corredor Oxford-Cambridge, entre o sul e o centro da Inglaterra, região considerada o “Vale do Silício” da Europa.

O governo britânico busca 10 bilhões de libras em investimento privado para viabilizar o projeto, e Abu Dhabi seria parte decisiva disso.

O vice-CEO da Mubadala, Waleed Al Muhairi, afirmou em 13 de outubro que o processo do City é “à parte” e não tem influência. Mesmo assim, ele é só um dos executivos de vários fundos de investimento.

A ameaça dos asiáticos leva a outra dúvida: e se essa pressão influenciar no julgamento do Manchester City?

Pressão política pode livrar ou tornar punição do Manchester City mais leve?

Uma das reações mais importantes — e surpreendentes — sobre o caso City veio do primeiro-ministro, Andy Burnham, do Partido Trabalhista. “Eu ficaria realmente preocupado em perdê-los [os donos do Manchester City]”, assumiu, ainda em setembro.

A relação do político com as figuras dos Emirados Árabes Unidos é antiga, pois ele foi prefeito da Grande Manchester entre 2017 e 2026, justamente o período em que os Citizens se consolidaram como a maior força do país, e os donos do clube realizaram investimentos também na cidade. “É frustrante quando as pessoas se precipitam em julgar.”

— Eles têm sido um parceiro importantíssimo na construção da Manchester moderna. [..] Agradeço sinceramente ao City Football Group e aos demais proprietários pelo dinheiro que investiram não apenas no Etihad [estádio] e no complexo ao redor, mas também na cidade.

Por essas falas, levantou-se a dúvida se o governo poderia interferir no julgamento. A reação foi tão negativa que, no dia seguinte, o gabinete do governo garantiu que haverá respeito ao resultado e sem influência em uma possível sanção aos responsáveis.

— O (primeiro-ministro) ressaltou que o processo independente ainda está em curso. É fundamental permitir que ele siga seu trâmite e respeitar o resultado. E, caso se comprove o cometimento de irregularidades, os responsáveis devem enfrentar as consequências cabíveis — escreveu o governo, em comunicado.

Posteriormente, o presidente do Órgão Regulador Independente do Futebol (IFR, na sigla em inglês), David Kogan, prometeu renunciar ao cargo em caso de pressão política.

Mas a declaração de Burnham e sua relação antiga com o poder emiradense — atualmente, investiga-se em quais condições o governo dele em Manchester concedeu um empréstimo a empresas controladas pelo dono do City, Sheik Mansour — levantam dúvidas sobre a influência estatal.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy BurnhamO primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)

Informações divulgadas pela imprensa posteriormente reforçaram essa impressão. A “Bloomberg” destacou que, em 14 de setembro, o presidente do Manchester City, Khaldoon Al Mubarak, teve uma reunião com o Secretário de Estado para Negócios, Inovação, Ciência e Comércio, Jonathan Reynolds.

Mesmo que o encontro não tenha tratado de futebol, conforme relataram fontes do governo, chama atenção que ocorreu 11 dias antes de o site “The Athletic” revelar que os Citizens foram considerados culpados pelas infrações financeiras. Al Mubarak, além de presidente do clube inglês, também atua como CEO do fundo Mubadala e conversou com o secretário sobre os investimentos atuais e futuros dos Emirados Árabes Unidos no Reino Unido.

Baghdadi acredita que é possível o governo exercer algum tipo de pressão nas autoridades do futebol inglês, apesar de haver uma independência entre quem gere a liga.

— O governo britânico pode dizer: ‘Se tiver que punir o City, pune, mas vai devagar, vamos tentar uma solução, alguma alternativa'. Não acho que a Premier League necessariamente vai acatar automaticamente, mas é mais uma força de pressão vinda do elemento político. O governo gostaria de manter uma relação estável com os Emirados — explicou.

Já Boff destaca que a pressão da opinião pública pode afastar a gestão do primeiro-ministro Andy Burnham dessa polêmica. “A população pressiona o governo a não influenciar na punição ao Manchester. Isso prejudicou outros times e o público quer punição”.

O Manchester City tem sido alvo, a cada visita a adversários em confrontos no futebol inglês, de protestos das torcidas rivais. “Uma geração de torcedores enganada”, dizia uma faixa em Anfield. A frase “51 anos” foi erguida em uma bandeira no Old Trafford para lembrar a última vez que os Citizens venceram um título antes da aquisição de Abu Dhabi.

“Uma intervenção política comprovada também poderia comprometer a credibilidade da competição”, reitera Krasinski, na esteira de críticas sobre o quão a atual edição da Premier League será válida. O time, agora treinado por Enzo Maresca, é o líder do Campeonato Inglês com 100% de aproveitamento.

O caso ainda seguirá aberto, pelo menos, pelos próximos meses. O Manchester City recorreu da decisão e o julgamento do recurso não acontecerá antes de janeiro de 2027. A Premier League, porém, busca que a definição das punições ocorra antes desse processo.

O tabloide “Daily Mail” apurou com fontes do processo que acreditam que a sanção pode ser uma perda de pontos suficiente para que o time seja rebaixado e sofra uma nova punição para que fique na segunda divisão por pelo menos mais uma temporada. As reações dos Emirados Árabes Unidos a essa decisão serão acompanhadas de perto no Reino Unido.

FONTE/CRÉDITOS: Carlos Vinicius Amorim
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