O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega a Buenos Aires nesta quarta-feira (2/7), para participar da Cúpula do Mercosul, marcada para esta quinta-feira (3/7). Este será o primeiro encontro formal entre ele e Javier Milei desde que o ultraliberal assumiu a presidência argentina, em dezembro de 2023. A viagem simboliza um teste de diplomacia em tempos de tensão ideológica, com pautas econômicas tentando sobrepujar as farpas políticas.
Com a posse da presidência temporária do Mercosul pelo Brasil, Lula encara o desafio de conduzir o bloco em um momento delicado, marcado por divergências internas e uma agenda externa que exige consenso – como a retomada das negociações para finalizar o acordo comercial com a União Europeia, pendente há mais de duas décadas.
A relação entre os dois líderes, porém, é atravessada por um histórico de críticas ácidas e posicionamentos antagônicos. Durante sua campanha eleitoral, Milei não poupou palavras contra Lula, chamando-o publicamente de “comunista” e “corrupto”. Em entrevista ao canal argentino La Nación +, o presidente chegou a justificar seus ataques afirmando: "Por acaso [Lula] não é comunista? E qual o problema em chamá-lo de corrupto, se ele foi preso por isso?"
Apesar da retórica inflamada, o tom adotado durante o G20, em outubro passado, foi de cordialidade morna e distanciamento protocolar. Na ocasião, o aperto de mãos entre os dois foi breve e sem sorrisos. A expectativa é de que o mesmo padrão se repita na Cúpula do Mercosul. Fontes próximas às delegações indicam que não está prevista uma reunião bilateral entre os presidentes, sugerindo que qualquer tentativa de reaproximação ou diálogo mais direto ainda não faz parte da agenda oficial.
A ausência de interlocução direta entre Brasília e Buenos Aires reflete um cenário mais amplo: a dificuldade de construção de consensos no MercosUL, agora sob comando brasileiro, diante de governos com visões opostas tanto no campo econômico quanto no institucional.
Enquanto Lula busca projetar o Brasil como motor da integração regional e impulsionador de acordos comerciais estratégicos, Milei insiste em uma postura ideológica que coloca a Argentina em rota de fricção com boa parte dos países-membros do bloco. O contraste entre os estilos de governança e os discursos públicos dos dois líderes promete tornar a cúpula mais uma prova de resistência política do que de cooperação efetiva.
Em meio a isso tudo, o que pode surgir é uma diplomacia mínima: respeito pelas convenções, mas pouca disposição para ir além. Afinal, quando o ódio vira marca registrada, até o silêncio parece barulhento.

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